sexta-feira, 9 de março de 2012

O Fluminense não joga o Campeonato Argentino



36 jogos invicto. 32 no apertura da segunda metade do ano passado, do qual sagrou-se campeão, e 4 no clausura desse ano, no qual ainda não tinha sofrido um gol sequer. Apenas 3 derrotas em seu estádio para clubes brasileiros pela Libertadores na história. Esse era o retrospecto do Boca Juniors que enfrentou o Fluminense na Bombonera na noite dessa quarta-feira. Mas o Fluminense não joga o Campeonatos Argentinos, e também não é um clube brasileiro qualquer. O Fluminense é enorme. Mais Fluminense do que nunca, goleou o Boca pelo placar de 2 a 1.

Logo no início da partida, ficou claro que o Fluminense não se intimidaria diante do time argentino mesmo jogando no estádio mais temido do planeta. E não é temido sem motivo. A Bombonera é o maior estádio pequeno do mundo. Ela combina uma capacidade grande de público (49 mil pessoas) com o clima acanhado e caseiro que só os estádios pequenos têm. O Aniceto Moscoso (Conselheiro Galvão) é a casa do Madureira, o Mourão Filho (Rua Bariri) é a casa do Olaria, e a Bombonera é a casa do Boca Juniors. Na verdade, mais do que casas, esses estádios são lares, tamanha a carga sentimental que carregam. O Maracanã é um estádio maravilhoso, mas não é uma casa. O Engenhão não chega a ser nem um quarto de hotel, tamanha a sua frieza. Talvez estádios como o Murumbi, o Monumental de Nuñez ou o Old Trafford sejam casas, mas a Bombonera é mais que isso. Volto a dizer, ela é um lar. Um lar habitado por uma família grande e barulhenta, que grita, canta e batuca o tempo todo, empurrando o time quase sempre para as vitórias. Quase sempre. Pois ontem o Fluminense se comportou como o oficial de justiça que traz uma ordem de despejo. Se manteve impassível, entrou, cumpriu seu dever e foi embora sabendo que fez o que tinha que ser feito.

Suportou os primeiros minutos sem ser pressionado. Antes disso, adiantou sua marcação até a intermediária adversária e saiu para o jogo. Foi recompensado com o gol de Fred aos 9 minutos, após belo passe de Deco, que, seguro do que estava fazendo, impediu aquele mesmo Fred de bater a falta direto para o gol. Durante todo o primeiro tempo, o Boca chegou com perigo apenas numa cobrança de falta de Riquelme aos 16 e numa blitz aos 43. Muito pouco. Não chegou a assustar o Flu.

O segundo tempo foi um pouco mais tenso. O Boca saiu pro jogo e acabou pressionando o Fluminense em alguns momentos, em especial no início e no fim da etapa. Logo no primeiro minuto, Riquelme acertou uma belíssima cobrança de falta na trave. No rebote, Somoza empatou o jogo. 1 a 1. Nesse momento, tudo poderia acontecer. No entanto, o que aconteceu de fato foi que aos 9 minutos Wellington Nense dominou uma bola vadia na ponta esquerda, entortou Caruzzo e cruzou para Deco pegar de bate-pronto e fazer o segundo do Flu. Durante os 35 minutos seguintes o Boca bem que tentou empatar o jogo, mas esbarrou na falta de qualidade de seu próprio time, que conta apenas com o brilho e a elegância de Riquelme e o esforço de mais três bons jogadores (Clemente Rodriguez, Erviti e Mouche), e na determinação dos tricolores de segurar o resultado (Digão foi o retrato da raça do Flu, saindo sem ar de campo depois de levar uma bolada no final do jogo). 2 a 1. Vitória tricolor.

O resultado premiou o time que mostrou ter mais qualidade e, ao mesmo tempo, mais consciência dentro de campo. O time do Fluminense se encontrou no campeonato carioca, conta com um grande goleiro que sabe pegar pênaltis, um meio de campo de muita qualidade e um ataque formado por jogadores que se completam. A defesa ainda precisa melhorar, mas os últimos jogos mostraram que já houve algum avanço. Além disso, o time é experiente e sabe jogar fora de casa. O destaque desse time no jogo de ontem, mais uma vez, foi Diguinho, preciso nos desarmes e perfeito na saída de bola. Ele deve ter descoberto que o juiz encarregado do seu caso é tricolor. Apenas isso poderia explicar sua súbita subida de produção nos últimos jogos, desde a eliminação do Botafogo na semifinal da Taça Guanabara até o triunfo sobre o Boca na Argentina. Está jogando tudo isso pra se livrar das acusações de contrabando e lavagem de dinheiro que pesam sobre ele.

Quanto ao Boca, pode chegar longe na Copa por causa de dois fatores: Riquelme e a Bombonera. Entretanto, é mais provável que fique no meio do caminho em razão da incompetência da maior parte dos seus jogadores, que formam um plantel que poderia ser, seguramente, o do Coritiba ou do Bahia, times brasileiros que apenas cumprem tabela.

I. K.

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