quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Orgulho Tricolor


http://globoesporte.globo.com/futebol/times/fluminense/noticia/2013/12/torcedores-do-flu-relatam-casos-de-hostilidade-apos-julgamento-no-stjd.html

     Tenho muito orgulho de ser tricolor. Aliás, tricolor de pai e mãe. E como todo tricolor na casa dos 30 anos, nunca me esqueço daquele 25 de junho de 1995 em que vencemos o maior jogo de futebol que já vi na minha vida. Não estava no estádio. Assistia ao jogo num clube com meu pai e aos 40 minutos do segundo tempo ouvia a imensa maioria dos torcedores presentes, vestidos com camisetas rubro-negras, cantarem “é campeão”. Aquele gol de barriga do Renato fez o tempo parar por um segundo, e daquele segundo em diante o Fluminense passou a ser um dos maiores amores da minha vida, um amor que me dilacera o peito de quando em vez.

     Com o passar dos anos, fui conhecendo um pouco mais a história do clube, e entre minhas descobertas está a de que nosso estádio é o berço tanto da seleção brasileira em específico quanto do futebol brasileiro em geral. Descobri que cedemos uma parte de nossa casa para a construção de uma rua que hoje é vital para toda a zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Também descobri que um dos maiores atletas da nossa história – uma espécie de Leonardo da Vinci do esporte, diga-se de passagem, pois foi campeão de futebol, de basquete, de natação e de outras modalidades – recusou-se a receber dinheiro para defender as cores do clube, e que um dos nossos mais importantes goleiros – e foram muitos – pediu que lhe amputassem um dedo para voltar a defender o Fluminense mais rápido. E além dessas descobertas de um passado que não vivi, eu vi com meus olhos um técnico campeão do mundo abrir mão de outras propostas para treinar o time na terceira divisão do campeonato brasileiro, que disputamos e vencemos.

     É impossível não ter orgulho de ser tricolor. E não será essa história mal contada e muito mal escutada que estamos vivendo no presente momento que vai nos tirar esse orgulho. Escolheram o Fluminense como o boi de piranha do futebol brasileiro. Tudo o que há de errado é por nossa culpa. Somos os corruptores, os corruptos, os adeptos da Lei de Gérson, os criminosos. Dessa forma, empurram para o cantinho escuro do esquecimento aquilo de que têm vergonha. Hiroshis, papéis amarelos e Euricos vão para a sombra. Todos os holofotes se voltam para, ou melhor, contra o Fluminense. Nós, tricolores, não devemos fazer o mesmo que nossos adversários. Precisamos olhar de frente nosso passado e nosso presente, especialmente os episódios mais polêmicos. E o que encontraremos? Encontraremos em 1996 um caso de corrupção do qual não fomos protagonistas mas do qual acabamos nos beneficiando indiretamente, que culminou com aquela cena patética do champanhe da qual nos envergonhamos. Encontraremos em 2000 um imbróglio juducial bastante complicado que levou à organização de um novo campeonato, para o qual fomos convidados. Encontraremos, por fim, em 2013, uma questão também complexa envolvendo o regulamento, seu descumprimento e a ação de um tribunal esportivo. Em nenhum dos três episódios nos envolvemos diretamente, mas temos que admitir que fomos beneficiados de uma forma ou de outra.

     Vale a pena perdermos um pouco de tempo com esse último episódio. Mas não quero falar da Portuguesa. Prefiro falar do nosso irmão bastardo, Smerdiákov Karamazov. O Flamengo escalou um jogador irregular durante toda a partida contra o Cruzeiro. Não foram 15 minutos, foi uma partida inteira e tratava-se de um titular absoluto. O jogo foi realizado na última rodada de um campeonato de pontos corridos, no qual todos os jogos têm o mesmo valor. E aí? Ele deveria ser absolvido? Não há prejuízo para os outros clubes que participam do campeonato e cumprem o regulamento?

     Não tenho e nem quero ter resposta para tudo, mas sei que o mundo não é tal e qual o jogo de polícia e ladrão do Atari que tanto me divertiu na infância. É um pouquinho mais complicado do que isso. Entender as coisas em sua complexidade exige esforço, mas nos aproxima mais da plenitude da experiência humana. O outro lado – a simplificação - é o que gera o preconceito, o ódio, a barbárie. É o que leva algumas pessoas a se matarem dentro de um estádio de futebol e outras a xingarem crianças de três anos.

I. K.

Nenhum comentário:

Postar um comentário