sábado, 24 de março de 2012
O Fluminense, o subúrbio, pipa e bola.
O Fluminense vai bem, obrigado. Venceu o Bonsucesso nessa tarde pelo placar de dois a zero confirmando todas as expectativas, já que jogou com seu time titular. Bastaram dezesseis minutos para a situação ficar definitivamente resolvida. Aos quatro, o Flu fez uma blitz e a bola sobrou para Leandro Eusébio, que deu bom passe para Wellington Nense ir ao fundo e cruzar na medida para Frederico escorar a bola com todo o cuidado para a rede. Um a zero com carinho. O Fluminense continuou em cima do Bonsucesso e o segundo gol veio após o pênalti claríssimo do goleiro Saulo em Wellington Nense, que havia recebido belo passe de Araújo. Frederico guardou. O Fluminense ainda teve boas chances no primeiro tempo – uma delas foi incrivelmente perdida por Araújo – mas não conseguiu ampliar.
Os últimos quarenta e cinco minutos do jogo foram encarados pelos jogadores do Fluminense como mera formalidade burocrática, e Abel aproveitou que a parada já estava resolvida para poupar Frederico, Wellington Nense e Araújo, destaques do primeiro tempo. Esse desinteresse do Flu, somado ao péssimo time comandado pelo grande ídolo “Marcão bigodinho de pedreiro” – figura chave no resgate do orgulho da torcida tricolor no final dos anos noventa – fez com que a segunda etapa não fosse mais do que sonolenta. E os espectadores da partida só não dormiram mais profundamente por causa dos constantes apitos do juiz, que a todo o momento assinalava faltas cometidas pelos tricolores. No final, um dois a zero xoxo e burocrático, mas justíssimo.
Mais interessante do que o jogo deve ter sido o espetáculo de pipas no céu de Bangu, sobre o Estádio Proletário Guilherme da Silveira Filho. Fred e Araújo, substituídos, olhavam encantados para o alto e riam. De fato, futebol e pipa têm tudo a ver. Quem conhece o subúrbio do Rio de Janeiro sabe que durante as férias e aos finais de semana há um ritual sagrado entre os meninos de 8 a 80 anos de idade. Após o almoço e até o cair da tarde, é a hora de soltar pipa, e todos saem às ruas em busca de uma sombra para colocarem seus artefatos de madeira, papel, linha no alto para o combate contra os artefatos inimigos. Não há como negar; soltar pipa é um ato belicoso. O objetivo é cortar as linhas dos inimigos, aparar suas pipas e, finalmente, soltar o grito lascivo, orgástico, que celebra a própria vitória e humilha o derrotado que mora na rua ao lado: “Bota outra, otário!”.
No crepúsculo, quando a canícula já deu lugar a um clima um pouco mais ameno e o asfalto ou paralelepípedo das ruas já não queima mais os pés dos meninos, os enfrentamentos individuais travados no céu dão lugar aos embates coletivos no solo: saem as pipas e entra a bola. Golzinho, golzão, gol a gol, bobinho ou paredão. Não importa. O futebol vai até quando os meninos aguentam ficar de pé. Só acaba quando estão completamente exauridos. Só então eles se recolhem para suas casas. Precisam dormir. Precisam continuar os sonhos das noites anteriores. Sonhos povoados de pipas e bolas.
Hoje o Fluminense viveu um sábado suburbano feliz.
sexta-feira, 9 de março de 2012
O Fluminense não joga o Campeonato Argentino
36 jogos invicto. 32 no apertura da segunda metade do ano passado, do qual sagrou-se campeão, e 4 no clausura desse ano, no qual ainda não tinha sofrido um gol sequer. Apenas 3 derrotas em seu estádio para clubes brasileiros pela Libertadores na história. Esse era o retrospecto do Boca Juniors que enfrentou o Fluminense na Bombonera na noite dessa quarta-feira. Mas o Fluminense não joga o Campeonatos Argentinos, e também não é um clube brasileiro qualquer. O Fluminense é enorme. Mais Fluminense do que nunca, goleou o Boca pelo placar de 2 a 1.
Logo no início da partida, ficou claro que o Fluminense não se intimidaria diante do time argentino mesmo jogando no estádio mais temido do planeta. E não é temido sem motivo. A Bombonera é o maior estádio pequeno do mundo. Ela combina uma capacidade grande de público (49 mil pessoas) com o clima acanhado e caseiro que só os estádios pequenos têm. O Aniceto Moscoso (Conselheiro Galvão) é a casa do Madureira, o Mourão Filho (Rua Bariri) é a casa do Olaria, e a Bombonera é a casa do Boca Juniors. Na verdade, mais do que casas, esses estádios são lares, tamanha a carga sentimental que carregam. O Maracanã é um estádio maravilhoso, mas não é uma casa. O Engenhão não chega a ser nem um quarto de hotel, tamanha a sua frieza. Talvez estádios como o Murumbi, o Monumental de Nuñez ou o Old Trafford sejam casas, mas a Bombonera é mais que isso. Volto a dizer, ela é um lar. Um lar habitado por uma família grande e barulhenta, que grita, canta e batuca o tempo todo, empurrando o time quase sempre para as vitórias. Quase sempre. Pois ontem o Fluminense se comportou como o oficial de justiça que traz uma ordem de despejo. Se manteve impassível, entrou, cumpriu seu dever e foi embora sabendo que fez o que tinha que ser feito.
Suportou os primeiros minutos sem ser pressionado. Antes disso, adiantou sua marcação até a intermediária adversária e saiu para o jogo. Foi recompensado com o gol de Fred aos 9 minutos, após belo passe de Deco, que, seguro do que estava fazendo, impediu aquele mesmo Fred de bater a falta direto para o gol. Durante todo o primeiro tempo, o Boca chegou com perigo apenas numa cobrança de falta de Riquelme aos 16 e numa blitz aos 43. Muito pouco. Não chegou a assustar o Flu.
O segundo tempo foi um pouco mais tenso. O Boca saiu pro jogo e acabou pressionando o Fluminense em alguns momentos, em especial no início e no fim da etapa. Logo no primeiro minuto, Riquelme acertou uma belíssima cobrança de falta na trave. No rebote, Somoza empatou o jogo. 1 a 1. Nesse momento, tudo poderia acontecer. No entanto, o que aconteceu de fato foi que aos 9 minutos Wellington Nense dominou uma bola vadia na ponta esquerda, entortou Caruzzo e cruzou para Deco pegar de bate-pronto e fazer o segundo do Flu. Durante os 35 minutos seguintes o Boca bem que tentou empatar o jogo, mas esbarrou na falta de qualidade de seu próprio time, que conta apenas com o brilho e a elegância de Riquelme e o esforço de mais três bons jogadores (Clemente Rodriguez, Erviti e Mouche), e na determinação dos tricolores de segurar o resultado (Digão foi o retrato da raça do Flu, saindo sem ar de campo depois de levar uma bolada no final do jogo). 2 a 1. Vitória tricolor.
O resultado premiou o time que mostrou ter mais qualidade e, ao mesmo tempo, mais consciência dentro de campo. O time do Fluminense se encontrou no campeonato carioca, conta com um grande goleiro que sabe pegar pênaltis, um meio de campo de muita qualidade e um ataque formado por jogadores que se completam. A defesa ainda precisa melhorar, mas os últimos jogos mostraram que já houve algum avanço. Além disso, o time é experiente e sabe jogar fora de casa. O destaque desse time no jogo de ontem, mais uma vez, foi Diguinho, preciso nos desarmes e perfeito na saída de bola. Ele deve ter descoberto que o juiz encarregado do seu caso é tricolor. Apenas isso poderia explicar sua súbita subida de produção nos últimos jogos, desde a eliminação do Botafogo na semifinal da Taça Guanabara até o triunfo sobre o Boca na Argentina. Está jogando tudo isso pra se livrar das acusações de contrabando e lavagem de dinheiro que pesam sobre ele.
Quanto ao Boca, pode chegar longe na Copa por causa de dois fatores: Riquelme e a Bombonera. Entretanto, é mais provável que fique no meio do caminho em razão da incompetência da maior parte dos seus jogadores, que formam um plantel que poderia ser, seguramente, o do Coritiba ou do Bahia, times brasileiros que apenas cumprem tabela.
I. K.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
O campeão e o vice.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Finalmente 1(2)!
O jogo começou bastante disputado, com muita correria, muito perde e ganha no meio-campo e o Botafogo levemente superior. No entanto, apesar do maior volume de jogo dos crying boys, o Fluminense sempre foi mais perigoso, assustando logo nos primeiros minutos com um preciso cruzamento de Carlinhos que não foi devidamente aproveitado pelo pequenino Wellington Nem. Fred e Thiago Neves – após belo passe de Bruno – também desperdiçaram boas chances, enquanto pelo lado do Botafogo os lances mais perigosos saíram dos pés de Elkeson. Primeiro, o sueco cobrou falta de longa distância para defesa de Cavalieri, depois deu um belo passe de calcanhar para o bom arremate de Andrezinho de fora da área. E foi isso. Primeiro tempo sem gols e muito aquém do emocionante Vasco e Flamengo do dia anterior.
No segundo tempo o panorama mudou. O Fluminense assumiu a postura de time grande e passou a pressionar o Botafogo, que, nervoso, mal conseguia passar do meio-campo. As chances não tardaram a aparecer. Primeiro com Fred após malandra cobrança de escanteio de Thiago Neves, depois com o próprio Thiago, que cabeceou uma bola milagrosamente salva por Jefferson. Entretanto, aos 28 minutos o mesmo filme dos últimos confrontos entre Fluminense e Botafogo ameaçou se repetir: domínio do Fluminense, chances perdidas, gol e classificação botafoguenses. Lucas lançou Herrera na ponta direita, a zaga tricolor parou pedindo impedimento, Herrera cruzou e Elkeson, o melhor jogador em campo, fez 1 a 0 para o Bota.
Mas ainda faltavam 15 minutos, e nunca podemos nos esquecer que o Botafogo nasceu com a vocação da derrota. Está na certidão de nascimento do clube, no DNA. DERROTA. E é quando parece que virá uma grande vitória ou um momento glorioso que essa vocação se mostra mais forte do que nunca. Pressão do Flu, lançamento de Deco, Márcio Azevedo deu condição, Leandro Eusébio dominou com a canhota e bateu com a direita. 1 a 1. Decisão por pênaltis.
Fred bateu com força no canto esquerdo. 1 a 0. Andrezinho deslocou Cavalieri com categoria. 1 a 1. Jean – melhor cobrador do Flu nos treinamentos – bateu fraquinho no canto direito. Jefferson pegou. Herrera bateu com segurança no canto direito. 2 a 1 Bota. Thiago Neves bateu no meio e empatou. Lucas bateu muito mal no canto esquerdo e Cavalieri pegou. He-man mandou grama, cal e a bola pra dentro. Renato esbanjou categoria. Anderson bateu o melhor pênalti da série. E... sobrou Loco Abreu. O que tem culhões. O apresentador de TV. O torcedor do Nacional. Mas nada disso adiantou. Loco bateu mal, fraco, rasteiro, do lado esquerdo, e Cavalieri fez a defesa com facilidade, mostrando ao mesmo tempo frieza para esperar o momento certo e agilidade para saltar na bola.
Resta ao Bota a Taça Rio. O time tem qualidade, mas sentiu a falta de Maicosuel. Peças de reposição de mais qualidade cairiam bem. O Flu segue em busca da Taça Guanabara. Mostrou que, além do excelente time e do banco de altíssima qualidade, tem embaixo das traves um goleiro que, na hora do aperto, se tudo der errado e sobrarem só os pênaltis, tem cacife para segurar a onda e garantir o time. Um goleiro que assusta os cobradores adversários. Finalmente um camisa 1(2)! Carioca e Libertadores precisam disso. O Fluminense vem forte.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Três volantes e meio.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
O juiz “poser”, o morto-vivo e o bom malandro

O Cariocão 2012 não para de empolgar o torcedor. Depois do inesquecível clássico disputado por Flamengo e Botafogo na última semana diante de uma multidão de, pasmem, 8 mil torcedores, agora foi a vez de Fluminense e Vasco realizarem uma histórica disputa na frente de 7 mil almas. Haja coração, amigo! E, comandando a festa, uma grande estrela. Cantora, modelo, atriz e árbitro de futebol nas horas vagas, Antonio Schneider levou a galera à loucura! Ora, um espetáculo memorável como esse merece algumas palavras.
Os coadjuvantes Fluminense e Vasco entraram em campo dispostos a tentar ofuscar o brilho da diva de amarelo. O jogo começou quente, lá e cá, com o Vasco ligeiramente melhor, assustando logo no primeiro minuto com um chute perigoso de Bernardo. Porém, logo aos 6 minutos o Fluminense chegou a seu gol através de uma bela tabela entre Deco e Thiago Neves, jogadores que se completam e que têm tudo para realizar uma excelente temporada. Enquanto o primeiro é dono de um passe preciso e de uma imensa categoria, o segundo possui a velocidade, o drible e a finalização como pontos fortes, e foi exatamente colocando essas características em prática – com passe de Deco e finalização de Thiago Neves – que acabou saindo o primeiro gol do jogo. A partir daí, o Flu passou a dominar as ações. Sobis ajudava na marcação pelo lado esquerdo, impedindo as subidas de Fágner, e Feltri não rendia o suficiente pelo lado direito. Deco mandava no meio-campo e tramava boas jogadas com Fred e Thiago Neves. Diante desse panorama, as chances tricolores começaram a aparecer. Primeiro aos 18, quando Thiago Neves cruzou para Fred, que foi agarrado, arranhado, desejado por Dedé (o Jorge Laffon vascaíno) num pênalti solenemente ignorado pela popstar que apitava o jogo. Foi a primeira oportunidade em que ela conseguiu fazer com que o público esquecesse do jogo e voltasse suas atenções para seu corpinho sensual. Aos 25, um belo contra-ataque que contou com a participação de Deco, Thiago Neves e Fred terminou com uma bela defesa de Fernando Prass em voleio de Deco. Felipe, sempre lúcido, foi para o vestiário reconhecendo que o Fluminense havia sido melhor na primeira etapa.
O segundo tempo começou diferente. Cristóvão Borges tirou o nulo Chaparro e pôs William Barbio em seu lugar. Um volante por um atacante. Uma substituição ousada. E deu certo. Barbio passou a fazer companhia a Fagner e os espaços começaram a aparecer pelo lado direito. Tal e qual um bom malandro, que se finge de morto para dar o bote na hora certa, foi esse mesmo Fagner que apareceu livre aos 14 e cruzou na medida para Alecsandro fazer o gol de empate. Como sempre, o Fluminense sofre um gol pelo lado esquerdo da sua defesa. É surpreendente o fato de que todos os comentaristas sempre chamam atenção para a fragilidade da zaga do Fluminense, mas ninguém se lembra que o lateral-esquerdo desse time é um zumbi chamado Carlinhos, que passa 88 minutos do jogo num estado de completa letargia e dois minutos tendo espasmos de iniciativa. Não é possível que ninguém perceba isso. O Vasco foi melhor do que o Fluminense no segundo tempo e acabou vencendo o jogo justamente porque passou a forçar mais por aquele lado, disputado entre o morto-vivo chupa-sangue já citado e o bom malandro Fágner. Entretanto, apesar do domínio do lateral vascaíno, houve um momento em que essa disputa pendeu para o lado oposto. Um desses raros momentos em que um espasmo – quase uma convulsão, eu diria – toma conta do corpo da múmia paralítica e a leva a uma ação . Carlinhos deu um belo drible em Fágner dentro da área e levou uma banda em troca. Pênalti. Metade do estádio viu. A outra metade, ou seja, os 285 árbitros que a FERJ mandou a campo, preferiu ignorar. Os jogadores do Fluminense ficaram irritados (especialmente Wellington Nem, que havia entrado na vaga de Sóbis e estava de frete para a jogada), mas continuaram a jogar. Poucos minutos depois, Alecsandro virou o jogo depois de uma jogada muito bem ensaiada e melhor ainda executada em conjunto com Bernardo, que cobrou o escanteio na primeira trave contando com a antecipação do companheiro. 2 a 1.
O jogo já contava 32 minutos de sua etapa final a essa altura, e foi a partir daí que Antonio Beyoncé Schneider resolveu barbarizar. Deixou de dar um escanteio absurdo e algumas faltas escandalosas em jogadores do Fluminense, que, indignados, foram pra cima dele. Caíram na armadilha. Rebolando seu corpanzil, a estrela poser começou a distribuir cartões aos tricolores, amarelos e vermelhos, sem distinção, mas sempre cuidando de empinar sua bundinha e inflar o peitoral para aparecer bem na tela da TV (o jogo teve transmissão em HD). O Fluminense não pôde reagir.
Fico imaginando o vestiário dos árbitros... Deve ter um imenso espelho em que eles ficam treinando suas poses para o jogo, como meninas adolescentes no banheiro do shopping. Antes de entrar em campo, os comentários devem ser: “Lindaaaaaaaaaaa” / “Que nada, você é que é muito fofaaaaaaaaaaa” / “Ti amux mtoooooo migs”. Por aí.
I. K.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
O que é “jeito de Libertadores”?
Os argentinos sabem jogar a Libertadores. Os uruguaios também. Os gaúchos, idem. Os brasileiros, não. Os bolivianos, equatorianos, colombianos e venezuelanos são inocentes. Os mexicanos não entendem a competição. Os chilenos batem. Os paraguaios podem surpreender. Por trás de todos esses clichês que cercam a competição mais desejada do continente americano na atualidade paira a mesma questão: o que é saber jogar a Libertadores? Ou, de forma mais clara, o que é “ter jeito de Libertadores”?
Acho que vale a pena começar com uma definição negativa, tentando entender o que é não ter jeito de Libertadores. Temos um exemplo muito próximo: o Fluminense na noite de ontem. Se tirarmos os 5 minutos iniciais, podemos caracterizar a atuação do time como medrosa, nervosa e covarde. Após a blitz que resultou no gol de Fred, o time entrou em parafuso. Os jogadores não arriscavam as jogadas, não agrediam, não ousavam em busca de mais gols. Muito pelo contrário, erravam passes primários no meio-de-campo, entregando a bola de graça ao adversário a todo o momento e se defendendo de maneira estabanada. Como num círculo vicioso, o nervosismo foi se acumulando e acabou descambando para as agressões. Primeiro Wagner e depois Leandro Eusébio agrediram gratuitamente atletas do Arsenal. Este último, aliás, no melhor estilo “Vida Bandida”, chutou a cara do cara caído, e, depois de ser expulso, ainda ficou com carinha de indignado. Ora, um time que, jogando em casa, passa 85 minutos recuado, com medo e tomando sufoco não é um time com jeito de Libertadores. Porrada gratuita e covardia não bastam.
Jeito de Libertadores é outra coisa. É ter culhão. Time que quer ganhar a Libertadores tem que deixar o adversário acuado quando joga em casa. Tem que se impor, dominar, amedrontar, falar grosso, mas, sobretudo, jogar bola e mostrar quem é o dono do campo. Tem que fazer os 11 adversários se sentirem estrangeiros indefesos num território hostil. Como fazer isso? Jogando sem medo, com raça, sem dar espaços, trazendo a torcida, atacando.
Fora de casa, o esquema é outro. Ali os 11 jogadores devem se transformar nos 300 de Esparta e resistir até a morte. Resistir à tudo. Aos campos horríveis, aos estádios acanhados, à pressão do time adversário, às pedradas da torcida. Resistir e saber atacar no momento certo. Aquele instante em que o adversário cansou de bater e você ainda tem o último fôlego. É preciso ser Muhammad Ali contra George Foreman.
Aliás, a metáfora relacionada ao boxe não está aqui à toa. Dedico este último parágrafo a um tema muito importante quando falamos de Libertadores: a porrada. Não existe Libertadores sem porrada. Tem que ter porrada. Tem que ter pelo menos um olho roxo ou uma costela quebrada. No entanto, uma coisa é um time sair na porrada porque apanhou o jogo inteiro, porque o adversário está querendo intimidar ou porque um companheiro levou uma bolada quando estava caído no chão. Nessas situações, sair na porrada é legítimo. Significa um levante diante de uma injustiça. É um ato de hombridade e, diria eu, de humanidade. Muito diferente de cair arreganhado sobre um adversário e dar um coice nele.
Se quiser arrumar alguma coisa, o Fluminense precisa urgentemente descobrir que chilique e covardia não são “jeito de Libertadores”.
OBS: Gaúchos e brasileiros são representantes de duas distintas nacionalidades que habitam o mesmo Estado.
I. K.





